quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Sanfins

Não sendo a única, a Freguesia de Sanfins é, pela sua particularidade geográfica, histórica e monumental, uma das mais belas e representativas imagens do ser Minhoto. Ser Alto-Minhoto, mais precisamente. Tudo nela nos conta histórias e estórias de sobrevivência e vida social de montanha e nos remete o imaginário para lendas antigas, castrejas, quando o homem falava com o lobo que ameaçava os rebanhos, na tentativa de o enganar ou talvez mesmo dele fazer aliado. Desde que não comesse muito... Ainda fala, percebe-se na solidão e abandono a que, afinal,os lobos de hoje a condenaram em nome do seu apetite insaciável. As gentes são cada vez menos, os lobos cada vez mais. Menos gente porque cada vez menos serviços que as sirvam, mais lobos porque cada vez mais oportunidades de compra e venda do que não tem preço. Sempre foram assim os lobos: o que não podem abocanhar pela força sua - ou das suas leis - arrebatam pelo cansaço, pela desilusão, e não desdenham servir-se de lacaios que fazem o seu trabalho como se gente fossem.
E lá está o magnífico Mosteiro à mão de semear do primeiro esperto que apareça e dele faça o seu castelo particular. O penedio à mão de semear da ganância cega à beleza, estéril de proveito local.
A Escola já foi no conto do vigário do "já não há crianças", os transportes que sirvam não vêm, e prepara-se o fim da própria Freguesia perante o olhar impotente dos seus fregueses e a paralisia de alguns dos representantes. É! Para certa gente o melhor amigo do Homem é o lobo!
Por detrás de um cerro, ao luar mágico de uma clareira de penedos onde os "nossos igrégios avós" resistiram milénios contra tudo e contra todos pela sua identidade e direito à liberdade, os lobos ronronam satisfeitos da ceia roubada de cabrito à Sanfins...

Autor Armando Carvalho

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