sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Portugal profundo. por Armando Carvalho

Hoje estive detido duas horas no posto da GNR de um lugarejo do Alto Minho que dá pelo nome de

Tangil, Concelho de Monção. Tudo começou com a paranóia de um sujeito que, ao ver-me exercer a minha actual profissão - ando a "contar a luz" por conta de um sub-empreiteiro contratado por um empreiteiro que foi contratado pela EDP - me achou com pinta de marginal. Até aí percebo-o. Depois, como lhe sugere profusamente a "a comunicação social" arranjou um magote de gente e foi esperar-me na aldeia seguinte onde encenaram um linchamento. Veio "a Guarda" - eu pedi que um dos "amotinados" a chamasse, não tinha saldo no telemóvel - primeiro um jovem à paisana num carro particular - parecia um "meu", tá evoluída a parvónia - e depois um carro patrulha com três agentes. Acho que era o total dos efectivos de Tangil, pelo menos não vi mais nenhum no posto. Identificaram-me, sem ler a identificação, e seguiu-se um caricato momento de discussão a ver se o carro ficava ali ou se seguia para a esquadra atrás do carro patrulha. Venceu a tese do inteligente que se voluntariou para ir comigo, não fosse eu fugir. O meu carro tem quase trinta anos e 600 000 kms. Pelo caminho julgou-me, insultou-me, convencido de que era uma questão de chegar ao posto para me incriminar e condenar. Ás pessoas que assistiram ao circo disse-lhes eu: daqui por duas horas estou aqui, e vocês vão pedir-me desculpa - No posto a palhaçada prosseguiu. Obrigaram-me a assinar o meu nome numa folha de papel - queriam que fosse em baixo, que patuscos! - para comparar com a do BI. Também quiseram que fizesse a minha rúbrica para comparar com a que tenho no cartão de serviço. Telefonaram ao meu supervisor, sem se identificarem, e queriam saber como se tramita todo o processo de adjudicação de empreitadas - pelo telefone! Queriam que eu dissesse que era funcionário da EDP - coisa que não (já) não sou - e como eu respondia que não era, mais desconfiados ficavam. Ignoravam que a EDP já há perto de vinte anos não tem funcionários próprios a fazer este serviço. Estes e muitos mais. O povo paga. Depois quiseram falar com o responsável da EDP pela leitura, o que achei engraçado, pois trata-se de um ex-colega meu que entrou no mesmo concurso em 1987... para leitor. Claro que ele estava em reunião. Já não havia mais investigação possível, tudo parecia demonstrado, mas em vão: eu continuava detido (o paisano dizia que não, mas eu não me sentia convidado nem tinha sido intimado) quando me lembrei do sub-empreiteiro, que também anda na rua como eu, e eles até o conheciam porque é da terra ao contrário de mim.

Entretanto, lembrei-me também que tenho um cartãozito de "Deputado Municipal" que, por exemplo, confere imunidade para qualquer detenção, excepto em caso de flagrante delito. Apresentei-o como identificação suplementar - ao fim de uma hora a aturar incompetência militante - e o caso mudou de figura. Radicalmente. E chegou o "sub-empreiteiro".  Por estranho que pareça, o homem não sabia que era sub-empreiteiro, apesar de o nome dele aparecer escarrapachado no cartão de serviço. Mas confirmou, sim, eu trabalhava por conta do empreiteiro, portanto, estava livre. Mas tinha perdido duas horas de trabalho tarefeiro, pago à peça. Não completei o objectivo, quem me paga não quer saber destas vicissitudes nem do cartãozito, vou ser penalizado na remuneração, mais do que poderia ter ganho se o dia fosse normal.

À saída do posto, o guarda "mais compreensivo" - há sempre um, deve ser uma carreira - acompanhou-me ao carro e tentou convencer-me que "isto é normal", as pessoas andam desconfiadas. O que me apetecia dizer-lhe é que a "normalidade" reside em meia dúzia de estúpidos que definem o mundo deles e o meu pelo voto no primeiro vigarista que lhes dá sacos plásticos e isqueiros. Mas não, também cansa derreter cera com tão medíocres defuntos. Disse-lhe o que me ia na alma: isto é um país de merda, quem me dera emigrar.Regressado ao ponto de detenção, escoltado "pela guarda" como exigi (quatro piscas - ai ninas!) voltei ao meu povo, finalmente apaziguado pela reposição da verdade e a acção da ordem pública. Uma mulher que tinha estado no motim pediu-me desculpa (os homens tinham-se pirado) e disse que até tinha pena de mim. Respondi-lhe com humildade e amor: não tenha, minha senhora, tenha pena de si.

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